De alma, de mãos, de línguas, de corpos.
Saudades da risota debaixo dos lençóis.
Da alegria de uma paixão.
Do silêncio doce de uma paixão.
Saudades.
De alma, de mãos, de línguas, de corpos.
Saudades da risota debaixo dos lençóis.
Da alegria de uma paixão.
Do silêncio doce de uma paixão.
Saudades.
Há arte e arte
Nasce, sem se saber bem como, manifesta-se sem se saber como.
Canta-se, toca-se, escreve-se, representa-se, pinta-se.
Nasce.
Instrumentos, inspirações, registos.
Directa, oculta.
Nasce.
Abstrata, precisa, realista, fantasiosa.
Telas, cadernos, folhas, cds, cassetes.
Nasce.
Fica, permanece, mais reconhecida, reconhecível, menos.
Fica.
Não sabiam bem há quanto tempo se conheciam, mas sabiam que gostavam um do outro.
Tem graça num mundo de competição e ambição e contas bancárias.
Um fumava, o outro adormecia cedo.
Não sabiam se o outro tinha visitas, não discutiam política.
Era uma amizade recheada de algum vinho, uns cigarros e só muito respeito.
Gostavam da massa cinzenta um do outro e também do trabalho um do outro.
Além disso só talvez a confiança imensa no coração alheio.
Os dias a serem vividos por dois vizinhos, renomados, galardoados, num prédio, numa cidade.
A mesma paixão.
Lá para a praça de Liege, no Porto.
Baila comigo.
Qual a importância de se ouvir a mesma canção, falar a mesma lingua, partilhar o mesmo código postal, ou dançar ao mesmo ritmo?
Onde começa e onde acaba o que temos de ter em comum?
E há ratings do que temos de ter em comum?
Modos à mesa, reação perante a adversidade, drive, silêncios, soluções, princípios (e fins ah), sonhos, contas bancárias, filhos.
E depois ainda há o que não temos de ter em comum mas que queremos e os nossos quereres que vamos encontrando ao longo da vida.
De repente vem-me a AI à cabeça e acho que o futuro é promissor.
Could it be love.
Could it just be reggae.
Maybe just a passage to Marrakech.
Maybe just a cold tremor before sunrise.
Era sexta.
Às sextas apetecia sestar, aproveitar o ar. Inspirar o azul, torrar.
Lembrava-se das sextas que eram iguais às quintas, porque às quintas já se sabia que vinha a sexta e por isso eram a mesma coisa.
As terças e as quartas eram outra coisa.
Nesses dias podia ser-se sombrio, pensar em castanho, sentir a cinzento.
Nem era supersticiosa mas nesses dias cruzes credo, não se podia falar muito. Se calhar era supersticiosa. Na realidade era supersticiosa e em muitos dias do ano, desde o primeiro ao 31.
Também era de fingimentos.
Tanto fingia que se adormecia, ou embalava na criação. Na eventualidade de um pesadelo se aventurar pela noite dentro destemido, rendia-se à policromia da fingida.
Não tinha maquilhagem, nem sombras, principalmente não tinha sombras. Batom até tinha.
Era livre ou achava que era livre, não fazia grande diferença.
Por cada palavra um suspiro de recreio.
Sempre foram suas as folhas de papel mas nunca as palavras.
As palavras eram roubadas sem data para devolução, sem pena, só com risco.
A prisão era outra, a do receio.
Em cada escolha ficava tanto por dizer, tudo por escrever.
Havia um ar sombrio em quase tudo o que sentia, e depois, havia um ar inocente em tudo o que sentia.
O tempo, a vida, acontecia no recreio dos desafios.
Amanhã fazes 21 anos.
Amanhã sou mãe há quase 22 anos.
Quis-te mesmo quando podias não poder nascer, sem hesitar.
Não te amamentei e isso custa-me, mas fui a que te adormeceu quando lutavas até ao segundo final contra a sono.
Amanhã faz 21 anos que te tornaste a minha vida.
Digo, a coisa mais importante da minha vida.
E quis ser a melhor, a mais dedicada, a que cria mais memórias, a que te dá o melhor colo, te enche o coração de amor, de mimo.
E saltaste em poças e pintaste com os pés e foste borboleta e o Pai Natal escrevia-te e tiveste toda a magia que soube criar.
Essa foi a tua vida quando era minha e essa foi a minha vida.
Ser a que mais te poupa da dor e não quer dias cinzentos na tua vida.
Para o bem e para o mal esse é também o meu amar, desfazer cada problema e querer que seja leve ou descomplicado cada passo teu.
Fui a que te ensinou a ler, a que estudou contigo e por ti.
A que te cozinhou, te embalou, te ouviu, te aplaudiu.
Também aquela que te puxou do fundo, mais do que uma vez porque a vida não é fácil.
A que te limpou as lágrimas, te defendeu, lutou por ti na escola, no recreio, onde foi preciso.
A que te deu força quando não a tinha, pintou o mundo de rosa quando o via negro.
Te protegeu do medo quando tremia com ele.
A que vê as tuas cores, a tua honestidade, a tua esperteza, a tua gentileza, a tua força, a tua determinação, a tua vulnerabilidade, a tua insegurança.
E amanhã são 21 anos e 21 anos já são muitos anos.
Já deviam ser anos suficientes para me quereres bem. Para saberes que quero o melhor para ti. Para saberes que também mereço o melhor e que não sou perfeita e isso é ok.
Amanhã são 21 anos e 21 anos cheios de muita coisa boa, de alguns desafios, mas de uma constante, estive sempre ao teu lado.
Vou estar sempre ao teu lado. Do meu jeito, com as minhas qualidades e os meus defeitos, mas sempre ao teu lado.
E quero dias da mãe e quero mimos e quero agradecimentos e quero colo e quero alegria e amizade e programas a duas e gargalhadas a duas e uma vida de mãe e filha que honre cada ano que vivemos juntas.
Porque já basta o dia em que a vida ou a morte nos separará.