Legado
Largado
Alagado
Fraturado
Partido
Caído
Desfeito
Porque um dia foi feliz.

Ficar, ficar era garantido.
A insatisfação do ficar
na perdição da partida
Sabendo que na partida
havia também um regresso
E ser pássaro era melhor
ser pássaro era seguro
Melhor era não procurar
melhor era não querer mais
Aceitar
aceitar e ser feliz
Isso era o segredo.
Era o teu dia, não sei qual era o teu dia, todos os dias eram teus.
Tu eras minha.
Ainda és minha, desde o vazio que não conheço.
Desse vazio faltava-me o eco.
Do teu riso fácil.
Do teu riso sem medo.
Tinhas muito medo, muitos medos.
Não de rir.
Não da aventura de seres grande e enorme.
Ontem chorámos todos.
Era gratidão pelo vazio que deixaste.
Ocupou tanto, ocupa tanto.
A vida é feita disso, não é?
Da falta que fica no vazio.
Num poema, num abraço, num orgasmo, num mergulho, numa esperança, num passeio, numa inspiração, num segredo, numa onda, numa árvore, numa chama.
Foram os teus olhos?
Foi a tua voz?
Foi o teu corpo?
Foi a tua alma?
O que vem primeiro no processo do encantamento
e o que vem por fim no processo do desencantamento.
Animais.
O que nos chama
e o que nos afasta.
Depois de afastados, há futuro
O que me diz a amígdala.
Tomo café com as tuas amigas, calço os teus sapatos, visito o teu marido, dou de comer ao teu gato.
E lembro-me de tudo e penso em tudo e revivo tudo mas nada resolve este meu faz de conta.
Assim vou, continuando a inventar os teus passos presentes.
E assim, com todos os avisos e com o tempo que o tempo nos deu, partiste.
E esta partida não é uma partida qualquer.
É uma partida que quero sentir todos os dias da minha vida.É uma saudade que quero que bata à porta a cada raio de sol, a cada gota de chuva, a cada sopro do vento.
Não me visitas em sonhos, não me dás sinais, não te sinto.
Só te perdi.
E perdi-te tanto.
Quase tanto como te amei, te amo.
Ainda rimos.
No meio das tuas inspirações quase artificiais ainda rimos e queria congelar no tempo esse riso.
Um riso já descabelado, sem baton encarnado mas ainda assim um som que não quero perder.
Vai fazer-me tanta falta.
E ao mesmo tempo que quero que partas, que partas leve, quero prender-te com uma ancora e não te deixar seguir.
E ao mesmo tempo que te quero leve e livre e solta, quero segurar-te para sempre.
É muito cedo mãe.
Vinha-me ao ouvido aquela música "please don't go, don't go, don't go away".
E não era só o sol de Julho, nem o vento de levante, nem os campos dourados, nem nada, trás tu.
Não vás. Não vás ainda.
A perda é uma merda e vivemos e sobrevivemos mesmo quando não queremos sobreviver.
Uma merda e vou ter saudades deste verão, e de ontem e de anteontem.
Saudades de tudo o que foi e de que por vir me fará falta.
Don't go, please don't go.
Num close up fotográfico
abstrato, sem definição
O que vês, o que viste
Na semelhança das palavras escritas há muito tempo, na profundidade de um olhar fotografado, no dramatismo dos pigmentos escolhidos
Terá toda a arte a sorte de guardar todos os sentimentos passados
Haverá em toda a arte a profundidade de tudo o que fomos.
Como o sabor de umas bolachas de criança, o cheiro de um perfume perdido nas memórias e reencontrado no presente.
Haverá em toda a arte o sufoco e o encanto que sentimos naquele tempo.

Sing me a melody.
Don't drive, stop the car.
Sing me a melody
One that makes me smile and even cry.
Sing me a melody
Fly me over our lives, each centimetre with our fingers, our souls, our bodies.
Sing me a melody.
For the sake of life.
For the sake of love.
For the sake of having me.
Quando te conjugava no passado
Havia uma neblina de início do dia
Cheirava a campo e a mar
Ouvia-se o chilrear mais prometido de Primavera
Passado rimava com véu e lençol e manto
Do teu corpo, do teu abraço.
Imaginado, dado, sonhado.
Passado.
Pedido.
Perdido.
E se te ouvia no já
Tremia
Do negrume
Da queima roupa
Despida que fiquei
Na dor do que acabou
Partido.
Vem,
Por onde fores vem.
Descobre o futuro comigo.
Caminha ao meu lado, aperta-me, prende-me.
Vem,
E no ir das ondas, prende-me ainda mais.
Sentirás o vento desta alma,
O medo que explode.
Vem,
Por onde formos.
Pisaremos os passos que já demos.
Lembraremos os sorrisos que já sorrimos.
Vem,
E no ir das nuvens, aperta-me ainda mais.
Porque a vida me foge sem ti.
De alma, de mãos, de línguas, de corpos.
Saudades da risota debaixo dos lençóis.
Da alegria de uma paixão.
Do silêncio doce de uma paixão.
Saudades.
Há arte e arte
Nasce, sem se saber bem como, manifesta-se sem se saber como.
Canta-se, toca-se, escreve-se, representa-se, pinta-se.
Nasce.
Instrumentos, inspirações, registos.
Directa, oculta.
Nasce.
Abstrata, precisa, realista, fantasiosa.
Telas, cadernos, folhas, cds, cassetes.
Nasce.
Fica, permanece, mais reconhecida, reconhecível, menos.
Fica.
Não sabiam bem há quanto tempo se conheciam, mas sabiam que gostavam um do outro.
Tem graça num mundo de competição e ambição e contas bancárias.
Um fumava, o outro adormecia cedo.
Não sabiam se o outro tinha visitas, não discutiam política.
Era uma amizade recheada de algum vinho, uns cigarros e só muito respeito.
Gostavam da massa cinzenta um do outro e também do trabalho um do outro.
Além disso só talvez a confiança imensa no coração alheio.
Os dias a serem vividos por dois vizinhos, renomados, galardoados, num prédio, numa cidade.
A mesma paixão.
Lá para a praça de Liege, no Porto.
Baila comigo.
Qual a importância de se ouvir a mesma canção, falar a mesma lingua, partilhar o mesmo código postal, ou dançar ao mesmo ritmo?
Onde começa e onde acaba o que temos de ter em comum?
E há ratings do que temos de ter em comum?
Modos à mesa, reação perante a adversidade, drive, silêncios, soluções, princípios (e fins ah), sonhos, contas bancárias, filhos.
E depois ainda há o que não temos de ter em comum mas que queremos e os nossos quereres que vamos encontrando ao longo da vida.
De repente vem-me a AI à cabeça e acho que o futuro é promissor.
Could it be love.
Could it just be reggae.
Maybe just a passage to Marrakech.
Maybe just a cold tremor before sunrise.
Era sexta.
Às sextas apetecia sestar, aproveitar o ar. Inspirar o azul, torrar.
Lembrava-se das sextas que eram iguais às quintas, porque às quintas já se sabia que vinha a sexta e por isso eram a mesma coisa.
As terças e as quartas eram outra coisa.
Nesses dias podia ser-se sombrio, pensar em castanho, sentir a cinzento.
Nem era supersticiosa mas nesses dias cruzes credo, não se podia falar muito. Se calhar era supersticiosa. Na realidade era supersticiosa e em muitos dias do ano, desde o primeiro ao 31.
Também era de fingimentos.
Tanto fingia que se adormecia, ou embalava na criação. Na eventualidade de um pesadelo se aventurar pela noite dentro destemido, rendia-se à policromia da fingida.
Não tinha maquilhagem, nem sombras, principalmente não tinha sombras. Batom até tinha.
Era livre ou achava que era livre, não fazia grande diferença.
Por cada palavra um suspiro de recreio.
Sempre foram suas as folhas de papel mas nunca as palavras.
As palavras eram roubadas sem data para devolução, sem pena, só com risco.
A prisão era outra, a do receio.
Em cada escolha ficava tanto por dizer, tudo por escrever.
Havia um ar sombrio em quase tudo o que sentia, e depois, havia um ar inocente em tudo o que sentia.
O tempo, a vida, acontecia no recreio dos desafios.
Amanhã fazes 21 anos.
Amanhã sou mãe há quase 22 anos.
Quis-te mesmo quando podias não poder nascer, sem hesitar.
Não te amamentei e isso custa-me, mas fui a que te adormeceu quando lutavas até ao segundo final contra a sono.
Amanhã faz 21 anos que te tornaste a minha vida.
Digo, a coisa mais importante da minha vida.
E quis ser a melhor, a mais dedicada, a que cria mais memórias, a que te dá o melhor colo, te enche o coração de amor, de mimo.
E saltaste em poças e pintaste com os pés e foste borboleta e o Pai Natal escrevia-te e tiveste toda a magia que soube criar.
Essa foi a tua vida quando era minha e essa foi a minha vida.
Ser a que mais te poupa da dor e não quer dias cinzentos na tua vida.
Para o bem e para o mal esse é também o meu amar, desfazer cada problema e querer que seja leve ou descomplicado cada passo teu.
Fui a que te ensinou a ler, a que estudou contigo e por ti.
A que te cozinhou, te embalou, te ouviu, te aplaudiu.
Também aquela que te puxou do fundo, mais do que uma vez porque a vida não é fácil.
A que te limpou as lágrimas, te defendeu, lutou por ti na escola, no recreio, onde foi preciso.
A que te deu força quando não a tinha, pintou o mundo de rosa quando o via negro.
Te protegeu do medo quando tremia com ele.
A que vê as tuas cores, a tua honestidade, a tua esperteza, a tua gentileza, a tua força, a tua determinação, a tua vulnerabilidade, a tua insegurança.
E amanhã são 21 anos e 21 anos já são muitos anos.
Já deviam ser anos suficientes para me quereres bem. Para saberes que quero o melhor para ti. Para saberes que também mereço o melhor e que não sou perfeita e isso é ok.
Amanhã são 21 anos e 21 anos cheios de muita coisa boa, de alguns desafios, mas de uma constante, estive sempre ao teu lado.
Vou estar sempre ao teu lado. Do meu jeito, com as minhas qualidades e os meus defeitos, mas sempre ao teu lado.
E quero dias da mãe e quero mimos e quero agradecimentos e quero colo e quero alegria e amizade e programas a duas e gargalhadas a duas e uma vida de mãe e filha que honre cada ano que vivemos juntas.
Porque já basta o dia em que a vida ou a morte nos separará.
I'm pretending
Just pretending
Há uma solidão justificada, aquela das quatro paredes, aquela do silêncio indesejado, aquela das noites vazias.
Depois há aquela solidão que não se pode perder, aquela que é sinal laranja e nos protege de nós mesmos.
Queria os livros.
Os que estavam por ler, os que tinham sido lidos, os que estavam por acabar, os que estavam por escrever.
Queria os livros e as histórias dos livros. Os romances, os poemas, os dramas-
Queria os livros.
As lombadas, os tipos de letra, a ramagem das folhas.
Queria os livros.
As personagens, os cenários, as cores.
Queria os outros para não estar.
Eu sabia o teu cheiro, o teu sabor, a tua pele.
Eu sabia o teu sono, a tua fome, o teu medo.
Eu sabia o teu orgulho, o teu vento, a tua alma.
Eu sabia o teu cabelo, o teu mergulho, o teu andar.
Eu sabia as tuas mãos, a tua boca, o teu inglês.
Eu sabia a tua procura, a tua perda, o teu calar.
Eu sabia o teu amar, o teu sofrer, o teu querer.
Eu só não podia saber o teu adeus.
Entre as quatro paredes havia uma muralha
Numa muralha escondia as minhas asas.
Havia tempo para voar e tempo para recolher
A recolha era mais funda quanto maior o medo da prisão
Quanto maior o medo da fuga
As quatro paredes
As paredes
As muralhas
refugios falsos do mundo
Onde só se ouve um nome
Onde só houve um nome.
Come talk to me.
Da procura por um filho, da perda de outro.
Talk to me.
Daquelas dores enterradas, perdidas e sempre achadas.
Das traições e dos perdões e do balanço de tanta dor.
Come talk to me.
Da vida e do que nos rouba, do que nos dá.
Da vida que é amarga.
Da vida que é pouca.
Come talk to me.
Das derrotas e sobretudo das máscaras.
Das máscaras das máscaras das máscaras.
Eu queria ser do tempo em que o tempo não era contato
Eu queria ser do tempo em que as estações mandavam mais
Eu queria ser do tempo em que as árvores tinham mais cor e menos forma
Eu queria ser do tempo em que o sonho do amor podia ser verdadeiro
Eu queria ser do tempo em que os sonhos se escreviam em cartas
Eu queria ser do tempo em que havia musas e poetas sem vida
Eu queria ser do tempo em que não pedíamos muito porque o pouco já o era
Ainda há dores sem palavras
não são magoas, nem ressentimentos, nem zangas, nem sofrimentos.
E são isso tudo.
Ainda há sentires sem palavras e é nesses sentires que o ser cresce e é nessa procura que o ser se descobre.