20.9.24

Era sexta-feira.

O ar lá fora cheirava a marés vivas.

Era Setembro.

Aquele mês que se vestia de Janeiro.

E não conto mais porque é sexta-feira. 

6.9.24


 










Há amores que se resolvem no céu.

2.9.24


 

Poesia-me.

23.8.24

Vem,

Por onde fores vem.

Descobre o futuro comigo.

Caminha ao meu lado, aperta-me, prende-me.

Vem, 

E no ir das ondas, prende-me ainda mais.

Sentirás o vento desta alma, 

O medo que explode.

Vem,

Por onde formos.

Pisaremos os passos que já demos.

Lembraremos os sorrisos que já sorrimos.

Vem, 

E no ir das nuvens, aperta-me ainda mais.

Porque a vida me foge sem ti.

15.7.24

Não escrevo.

Não escrevo mais.

Porque os dias são longos e as noites são curtas de mais.

Não, não escrevo mais.

Porque os dias são curtos e as noites tardam em passar.

Não, não escrevo mais.

De eterno chega-me o fim.

3.4.24


 











Camadas

Layers

Que pomos que tiramos

De sofrimento, de proteção

De roupa que despimos rapidamente para outros braços nos cobrirem

De vidas, de dias, de anos, de passados

Camadas

Layers



27.3.24












O corpo

Flutuava

Pesava

Caia

Colapso de cinzas

Num dia de ventania

Sombria

21.2.24

 Na noite mais só as células multiplicavam-se.

22.11.23

 Tinha no teu nome a segurança da queda.

16.10.23

Em Outubro o tempo era brilhante mas chegava o escuro.

Este Outubro chegava com o escuro a tragédia do homem.

Assim como o Inverno que se adivinha nas casas pobres, molhadas e vazias.

Os bolsos rotos.

Os sacos vazios.

É dificil querer mudar toda a tristeza do mundo.


28.8.23

Brincadeira

De alma, de mãos, de línguas, de corpos.

Saudades da risota debaixo dos lençóis.

Da alegria de uma paixão.

Do silêncio doce de uma paixão.

Saudades.


18.8.23

Anónima

Há arte e arte

Nasce, sem se saber bem como, manifesta-se sem se saber como.

Canta-se, toca-se, escreve-se, representa-se, pinta-se.

Nasce.

Instrumentos, inspirações, registos.

Directa, oculta.

Nasce.

Abstrata, precisa, realista, fantasiosa. 

Telas, cadernos, folhas, cds, cassetes.

Nasce.

Fica, permanece, mais reconhecida, reconhecível, menos.

Fica.


6.7.23

Havia dias em que os barcos ficavam no mar mais tempo. 

Havia dias em que me apetecia ser barco e ficar na costa mais tempo. 

Havia tempos em que costa era tempo de férias, outros em que as tuas costas eram conforto e outros em que te queria ver pelas costas. 


14.6.23

Me encanta e eu escrevo


Viviam, respiravam e criavam nos mesmos metros quadrados de implantação.

Não sabiam bem há quanto tempo se conheciam, mas sabiam que gostavam um do outro.

Tem graça num mundo de competição e ambição e contas bancárias.

Um fumava, o outro adormecia cedo.

Não sabiam se o outro tinha visitas, não discutiam política.

Era uma amizade recheada de algum vinho, uns cigarros e só muito respeito.

Gostavam da massa cinzenta um do outro e também do trabalho um do outro. 

Além disso só talvez a confiança imensa no coração alheio.

Os dias a serem vividos por dois vizinhos, renomados, galardoados, num prédio, numa cidade.

A mesma paixão. 

Lá para a praça de Liege, no Porto.

16.5.23


Baila comigo.

Qual a importância de se ouvir a mesma canção, falar a mesma lingua, partilhar o mesmo código postal, ou dançar ao mesmo ritmo?

Onde começa e onde acaba o que temos de ter em comum?

E há ratings do que temos de ter em comum?

Modos à mesa, reação perante a adversidade, drive, silêncios, soluções, princípios (e fins ah), sonhos, contas bancárias, filhos.

E depois ainda há o que não temos de ter em comum mas que queremos e os nossos quereres que vamos encontrando ao longo da vida.

De repente vem-me a AI à cabeça e acho que o futuro é promissor.


12.5.23

Retalhos de músicas

Could it be love.

Could it just be reggae.

Maybe just a passage to Marrakech.

Maybe just a cold tremor before sunrise.


17.4.23


 

Primavera afogada de ti. 

14.4.23

Era sexta.

Às sextas apetecia sestar, aproveitar o ar. Inspirar o azul, torrar.

Lembrava-se das sextas que eram iguais às quintas, porque às quintas já se sabia que vinha a sexta e por isso eram a mesma coisa.

As terças e as quartas eram outra coisa.

Nesses dias podia ser-se sombrio, pensar em castanho, sentir a cinzento.

Nem era supersticiosa mas nesses dias cruzes credo, não se podia falar muito. Se calhar era supersticiosa. Na realidade era supersticiosa e em muitos dias do ano, desde o primeiro ao 31.

Também era de fingimentos.

Tanto fingia que se adormecia, ou embalava na criação. Na eventualidade de um pesadelo se aventurar pela noite dentro destemido, rendia-se à policromia da fingida.

Não tinha maquilhagem, nem sombras, principalmente não tinha sombras. Batom até tinha.

Era livre ou achava que era livre, não fazia grande diferença.



2.3.23

I wish I could cover my ears and be deaf. I wish I could be mute too. I wish time would be taken from me and tomorrow was only goodbye.

8.2.23

o ecrã nos olhos

os ouvidos nas teclas

o coração no social

assim media-se a vida.