18.8.23

Anónima

Há arte e arte

Nasce, sem se saber bem como, manifesta-se sem se saber como.

Canta-se, toca-se, escreve-se, representa-se, pinta-se.

Nasce.

Instrumentos, inspirações, registos.

Directa, oculta.

Nasce.

Abstrata, precisa, realista, fantasiosa. 

Telas, cadernos, folhas, cds, cassetes.

Nasce.

Fica, permanece, mais reconhecida, reconhecível, menos.

Fica.


6.7.23

Havia dias em que os barcos ficavam no mar mais tempo. 

Havia dias em que me apetecia ser barco e ficar na costa mais tempo. 

Havia tempos em que costa era tempo de férias, outros em que as tuas costas eram conforto e outros em que te queria ver pelas costas. 


14.6.23

Me encanta e eu escrevo


Viviam, respiravam e criavam nos mesmos metros quadrados de implantação.

Não sabiam bem há quanto tempo se conheciam, mas sabiam que gostavam um do outro.

Tem graça num mundo de competição e ambição e contas bancárias.

Um fumava, o outro adormecia cedo.

Não sabiam se o outro tinha visitas, não discutiam política.

Era uma amizade recheada de algum vinho, uns cigarros e só muito respeito.

Gostavam da massa cinzenta um do outro e também do trabalho um do outro. 

Além disso só talvez a confiança imensa no coração alheio.

Os dias a serem vividos por dois vizinhos, renomados, galardoados, num prédio, numa cidade.

A mesma paixão. 

Lá para a praça de Liege, no Porto.

16.5.23


Baila comigo.

Qual a importância de se ouvir a mesma canção, falar a mesma lingua, partilhar o mesmo código postal, ou dançar ao mesmo ritmo?

Onde começa e onde acaba o que temos de ter em comum?

E há ratings do que temos de ter em comum?

Modos à mesa, reação perante a adversidade, drive, silêncios, soluções, princípios (e fins ah), sonhos, contas bancárias, filhos.

E depois ainda há o que não temos de ter em comum mas que queremos e os nossos quereres que vamos encontrando ao longo da vida.

De repente vem-me a AI à cabeça e acho que o futuro é promissor.


12.5.23

Retalhos de músicas

Could it be love.

Could it just be reggae.

Maybe just a passage to Marrakech.

Maybe just a cold tremor before sunrise.


17.4.23


 

Primavera afogada de ti. 

14.4.23

Era sexta.

Às sextas apetecia sestar, aproveitar o ar. Inspirar o azul, torrar.

Lembrava-se das sextas que eram iguais às quintas, porque às quintas já se sabia que vinha a sexta e por isso eram a mesma coisa.

As terças e as quartas eram outra coisa.

Nesses dias podia ser-se sombrio, pensar em castanho, sentir a cinzento.

Nem era supersticiosa mas nesses dias cruzes credo, não se podia falar muito. Se calhar era supersticiosa. Na realidade era supersticiosa e em muitos dias do ano, desde o primeiro ao 31.

Também era de fingimentos.

Tanto fingia que se adormecia, ou embalava na criação. Na eventualidade de um pesadelo se aventurar pela noite dentro destemido, rendia-se à policromia da fingida.

Não tinha maquilhagem, nem sombras, principalmente não tinha sombras. Batom até tinha.

Era livre ou achava que era livre, não fazia grande diferença.



2.3.23

I wish I could cover my ears and be deaf. I wish I could be mute too. I wish time would be taken from me and tomorrow was only goodbye.

8.2.23

o ecrã nos olhos

os ouvidos nas teclas

o coração no social

assim media-se a vida.

27.1.23

Não sabia dar xoxos.

Sempre estivera com homens comprometidos, o beijo era já sexo.

Não sabia dar xoxos nem despir-se lentamente.

Porque eu tenho de deixar para a posteridade que girls rock.

Bloody hell man are slow.

Desabafos de uma mulher trabalhadora.

25.1.23


Havia a dos 7, a dos 30, a dos 80.

A linha da idade é percorrida sem paragem.

Somos todas, sou todas.

Tenho pena da que chegou antes do tempo, da que partiu antes do tempo.

Pena de tudo que é antes do tempo.

Nenhuma ficou para além do tempo.

Ainda.

13.1.23

Por cada palavra um suspiro de recreio.

Sempre foram suas as folhas de papel mas nunca as palavras.

As palavras eram roubadas sem data para devolução, sem pena, só com risco.

A prisão era outra, a do receio.

Em cada escolha ficava tanto por dizer, tudo por escrever.

Havia um ar sombrio em quase tudo o que sentia, e depois, havia um ar inocente em tudo o que sentia.

O tempo, a vida, acontecia no recreio dos desafios.

12.1.23

Queria ler-te o futuro. 

Dizer te amanhã.

Fechar as janelas.


27.12.22

acendiam-se luzes

Rasgava-se papel

Rolavam lágrimas desorientadas

na estrada

era o final do ano

tudo chegava ao fim 

Adeus e inicio

infinito de mim.

1.12.22

Escurecia lá fora, os pássaros, sem medo, faziam do vento o caminho.

O inverno é assim, escuro.

Rima com partida, com frio, com fim, com solidão e morte.

O inverno é assim, escuro, com intervalos.

Nos intervalos.

O inverno é grande.

19.8.22













E nas noites bem dormidas

Ouvia mais os gritos da solidão.


28.7.22

Amanhã fazes 21 anos.

Amanhã sou mãe há quase 22 anos.

Quis-te mesmo quando podias não poder nascer, sem hesitar.

Não te amamentei e isso custa-me, mas fui a que te adormeceu quando lutavas até ao segundo final contra a sono.

Amanhã faz 21 anos que te tornaste a minha vida.

Digo, a coisa mais importante da minha vida.

E quis ser a melhor, a mais dedicada, a que cria mais memórias, a que te dá o melhor colo, te enche o coração de amor, de mimo.  

E saltaste em poças e pintaste com os pés e foste borboleta e o Pai Natal escrevia-te e tiveste toda a magia que soube criar.

Essa foi a tua vida quando era minha e essa foi a minha vida.

Ser a que mais te poupa da dor e não quer dias cinzentos na tua vida.

Para o bem e para o mal esse é também o meu amar, desfazer cada problema e querer que seja leve ou descomplicado cada passo teu.

Fui a que te ensinou a ler, a que estudou contigo e por ti.

A que te cozinhou, te embalou, te ouviu, te aplaudiu.

Também aquela que te puxou do fundo, mais do que uma vez porque a vida não é fácil.

A que te limpou as lágrimas, te defendeu, lutou por ti na escola, no recreio, onde foi preciso.

A que te deu força quando não a tinha, pintou o mundo de rosa quando o via negro.

Te protegeu do medo quando tremia com ele.

A que vê as tuas cores, a tua honestidade, a tua esperteza, a tua gentileza, a tua força, a tua determinação, a tua vulnerabilidade, a tua insegurança.

E amanhã são 21 anos e 21 anos já são muitos anos.

Já deviam ser anos suficientes para me quereres bem. Para saberes que quero o melhor para ti. Para saberes que também mereço o melhor e que não sou perfeita e isso é ok.

Amanhã são 21 anos e 21 anos cheios de muita coisa boa, de alguns desafios, mas de uma constante, estive sempre ao teu lado.

Vou estar sempre ao teu lado. Do meu jeito, com as minhas qualidades e os meus defeitos, mas sempre ao teu lado.

E quero dias da mãe e quero mimos e quero agradecimentos e quero colo e quero alegria e amizade e programas a duas e gargalhadas a duas e uma vida de mãe e filha que honre cada ano que vivemos juntas.

Porque já basta o dia em que a vida ou a morte nos separará.

5.7.22

Era nas que não te dizia

Era nas que não ouvia

Era nas que não escrevia

Era nas que não podia pensar

Era nessas que estava o futuro.

3.7.22

Painting the world











I'm pretending

Just pretending

Pretending that you're on my side
Pretending everything is open wide
Pretending you're not just along for the ride
Pretending it can't be tonight
Just pretending
Just pretending

Van the Man