
Escrever para descrever o peso da tua mão
O amparo do teu abraço
O segredo do teu colo
Entre as quatro paredes havia uma muralha
Numa muralha escondia as minhas asas.
Havia tempo para voar e tempo para recolher
A recolha era mais funda quanto maior o medo da prisão
Quanto maior o medo da fuga
As quatro paredes
As paredes
As muralhas
refugios falsos do mundo
Onde só se ouve um nome
Onde só houve um nome.
Come talk to me.
Da procura por um filho, da perda de outro.
Talk to me.
Daquelas dores enterradas, perdidas e sempre achadas.
Das traições e dos perdões e do balanço de tanta dor.
Come talk to me.
Da vida e do que nos rouba, do que nos dá.
Da vida que é amarga.
Da vida que é pouca.
Come talk to me.
Das derrotas e sobretudo das máscaras.
Das máscaras das máscaras das máscaras.
Eu queria ser do tempo em que o tempo não era contato
Eu queria ser do tempo em que as estações mandavam mais
Eu queria ser do tempo em que as árvores tinham mais cor e menos forma
Eu queria ser do tempo em que o sonho do amor podia ser verdadeiro
Eu queria ser do tempo em que os sonhos se escreviam em cartas
Eu queria ser do tempo em que havia musas e poetas sem vida
Eu queria ser do tempo em que não pedíamos muito porque o pouco já o era
Ainda há dores sem palavras
não são magoas, nem ressentimentos, nem zangas, nem sofrimentos.
E são isso tudo.
Ainda há sentires sem palavras e é nesses sentires que o ser cresce e é nessa procura que o ser se descobre.